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lunedì 9 febbraio 2026

Democracia, Pós-verdade e o Choque Civilizatório do Nosso Tempo

 


Comunicação, Consciência e Poder

Durante milênios, a humanidade organizou sua experiência coletiva a partir de uma lógica simples e profundamente eficaz: a comunicação vertical. Poucos falavam, muitos ouviam. A elite política, religiosa, econômica ou intelectual produzia narrativas, valores e verdades; o povo as absorvia, internalizava e reproduzia. Isso constrói não só o consciente coletivo mas constrói também o inconsciente, moldando o que é considerado normal, possível, moral ou pensável, formando o que chamamos de consciência coletiva. Michel Foucault chamaria isso de regimes de verdade: não é apenas quem manda, mas quem define o que pode ser dito.
Nesse modelo poucos falam, muitos escutam. A verdade é apresentada como algo externo ao indivíduo.
O papel da maioria é obedecer, internalizar e reproduzir
Esse modelo sustentou impérios, religiões, Estados e sistemas morais inteiros. Ele garantiu ordem, previsibilidade e continuidade histórica. Mas também produziu submissão, silenciamento e dependência simbólica.
Hoje, esse modelo está em colapso. E o que muitos chamam de “enlouquecimento do mundo” pode ser, na verdade, um choque civilizatório entre dois regimes de comunicação, consciência e poder.

A ruptura histórica: da comunicação vertical à horizontal
A internet inaugura algo sem precedentes: a comunicação horizontal em escala planetária. Pela primeira vez, bilhões de pessoas não apenas consomem informação, mas produzem discurso, disputam narrativas e questionam autoridades.
Isso não é apenas uma mudança tecnológica. É uma mudança antropológica.
O saber deixa de ser escasso
A autoridade deixa de ser automática
A verdade deixa de ser única
O indivíduo passa a comparar versões da realidade, a desconfiar de narrativas oficiais e a perceber que aquilo que sempre lhe foi apresentado como “natural” ou “inevitável” é, muitas vezes, construção de poder.
Esse processo gera consciência, libertação — mas também gera instabilidade, polarização e não harmonia. Libertação não é um processo suave.
A polarização não surge porque as pessoas ficaram mais irracionais, mas porque
as narrativas únicas se fragmentaram.
Antes, havia poucas versões dominantes da realidade. Agora, há muitas — e elas entram em conflito direto.


Psicologia coletiva: a queda do “pai simbólico”
Do ponto de vista psicológico, a comunicação vertical funcionava como um pai simbólico: uma instância que dizia o que era certo, errado, verdadeiro e falso. Quando essa figura perde credibilidade, o sujeito coletivo entra em crise.
Essa crise se manifesta como: ansiedade, raiva, polarização, necessidade de pertencimento,
busca desesperada por novas certezas.

Nem toda libertação é vivida como alívio. Muitas vezes, ela é vivida como angústia.
A liberdade exige responsabilidade, pensamento crítico e tolerância à ambiguidade — capacidades que não se desenvolvem automaticamente.
Por isso, a comunicação horizontal produz tanto consciência emancipadora quanto novos fanatismos. A mesma rede que permite pensamento crítico também permite bolhas ideológicas, radicalização emocional e identidades políticas rígidas.

Toda transição de paradigma passa pelo caos
Historicamente, nenhuma grande transformação civilizatória foi suave. A passagem do feudalismo para a modernidade, da monarquia absoluta para a democracia, da oralidade para a escrita — todas foram marcadas por conflito, confusão e violência simbólica ou real.
Estamos vivendo algo semelhante e o que chamamos hoje de polarização pode ser entendido como:
o velho mundo tentando se manter
o novo mundo ainda imaturo
consciências despertando em ritmos diferentes
Não há mais uma narrativa dominante capaz de organizar o todo. E o vazio deixado por essa narrativa gera disputa.

Democracia em crise: excesso de voz ou falta de maturidade?
A democracia moderna foi pensada num mundo de comunicação vertical, com mediações claras:
partidos, imprensa, instituições.
A comunicação horizontal rompe essas mediações. Todos falam ao mesmo tempo, diretamente, emocionalmente. Isso cria um paradoxo:
Nunca houve tanta participação
Nunca houve tanta desconfiança

A democracia passa a ser tensionada por um excesso de vozes sem consenso mínimo sobre fatos,
critérios de verdade, legitimidade.
O problema não é que “as pessoas falam demais”. O problema é que a democracia exige cidadãos com maturidade cognitiva e emocional, algo que o modelo antigo não precisou desenvolver, porque a obediência era suficiente.

Pós-verdade: libertação ou colapso do real?
A chamada pós-verdade não surge apenas da mentira. Ela surge do colapso da autoridade única da verdade.
Quando múltiplas narrativas competem, fatos perdem centralidade, emoções ganham força,
identidades se sobrepõem à realidade empírica.
Mas é um erro tratar a pós-verdade apenas como degeneração moral. Ela é também um sintoma de transição: a verdade deixou de ser algo imposto de cima, mas ainda não aprendemos a construí-la coletivamente de forma madura.

Poder hoje: da dominação visível ao controle invisível
As elites tradicionais não desapareceram. Elas se adaptaram.
Hoje, o poder não se exerce apenas por censura direta, mas por algoritmos que controlam visibilidade, plataformas privadas que regulam discurso, “checadores da verdade” centralizados,
tentativas de redefinir quem pode falar, narrativas de “proteção” contra desinformação.
É uma tentativa de reverticalizar a comunicação horizontal, agora de forma mais sutil e técnica. Um poder menos visível, mas não menos eficaz.
O risco é criar novas formas de dominação travestidas de liberdade.

Dimensão espiritual: consciência como responsabilidade
Em um sentido mais profundo — espiritual, mas não religioso —, estamos sendo empurrados para um novo estágio de consciência.
A pergunta deixa de ser:
“Quem tem a verdade?”
E passa a ser:
“Como convivemos sem uma verdade única imposta?”

Isso exige humildade epistemológica, escuta real, responsabilidade individual, ética sem tutela.
A internet não cria consciência. Ela expõe o nível de consciência que temos.
Não estamos enlouquecendo — estamos atravessando
O mundo não está simplesmente enlouquecendo. Ele está atravessando uma transição civilizatória profunda: do controle vertical da consciência para a responsabilidade horizontal do sentido.
O desafio do nosso tempo não é tecnológico, nem apenas político. É humano: seremos capazes de sustentar liberdade sem precisar de novos dogmas?
Conseguiremos amadurecer antes de recriar novas formas de dominação?

A resposta a essas perguntas definirá não apenas o futuro da democracia, mas o tipo de humanidade que estamos nos tornando.

Como é Possível que a Consciência Humana possa mudar algo tão complexo como o Planeta? Cap. I

O que é a verdade? “Quid est veritas?”– Cap 6